Logo Sílvio Meireles Notes
#Produtividade#Filosofia#Vida#Japão#Reflexão

Cozy Things, Produtividade e a Vida

Eu gosto de produtividade.

Gosto de organizar as coisas, medir progresso, acompanhar métricas, criar sistemas, otimizar processos e tentar fazer melhor amanhã do que fiz hoje.

Talvez até demais.

Existe algo quase reconfortante em transformar a vida em um sistema que pode ser observado e melhorado.

Quantos livros eu li? Quantos treinos fiz? Quanto produzi? Quanto investi? Quanto aprendi? Quanto avancei?

O problema não está necessariamente nessas perguntas.

O problema começa quando elas passam a ser as únicas perguntas que fazemos.

Nos últimos tempos, tenho pensado bastante sobre isso. Sobre cozy games. Sobre atividades que fazemos simplesmente porque são agradáveis. Sobre o conceito japonês de Ma. E, mais recentemente, sobre uma frase de Luiz Antônio Simas:

“O contrário da vida não é a morte. O contrário da vida é o desencanto.”

Essas ideias parecem falar de coisas diferentes.

Na verdade, acho que estão falando exatamente da mesma coisa.

Estão falando sobre os espaços da vida que não precisam produzir nada.

#Quando até descansar precisa ser produtivo

Existe uma coisa curiosa na nossa relação atual com produtividade.

Nós não queremos apenas trabalhar bem. Queremos também descansar bem.

Dormir melhor. Ler melhor. Treinar melhor. Meditar melhor. Ter hobbies melhores.

Até a recuperação ganhou métricas.

Hoje podemos acordar e descobrir, antes mesmo de entender como estamos nos sentindo, se o relógio considera que dormimos bem. Podemos medir frequência cardíaca, estresse, VO₂ Max, passos, calorias, recuperação, produtividade, tempo de tela e dezenas de outras coisas.

Eu gosto dessas métricas.

O problema não são elas.

O problema aparece quando começamos a acreditar que aquilo que não pode ser medido talvez não tenha valor.

Então até o lazer precisa justificar sua existência.

Se estou jogando videogame, o jogo precisa ensinar alguma coisa. Se estou lendo, deveria ser um livro que agregue conhecimento. Se estou assistindo algo, talvez pudesse estar vendo um documentário. Se estou caminhando, poderia aproveitar para ouvir um podcast.

Se estou sentado sem fazer nada, imediatamente parece que existe alguma coisa errada.

Sempre poderia existir algum tipo de otimização.

E assim conseguimos cometer uma pequena façanha:

transformamos até o descanso em trabalho.

#Cozy Things

Foi aí que comecei a me interessar cada vez mais pelo conceito de cozy.

Cozy games são provavelmente o exemplo mais evidente.

Stardew Valley, Animal Crossing, jogos de exploração, construção, fazendas, pesca, organização e histórias simples.

Normalmente não existe uma pressão enorme para vencer.

Você não precisa provar nada para ninguém. Não precisa estar no topo de um ranking. Não precisa transformar aquela habilidade em profissão.

Você simplesmente joga.

No seu ritmo.

Existe progresso, mas quase nunca existe urgência.

E acho que isso explica boa parte do conforto desses jogos.

Eles oferecem algo que está ficando cada vez mais raro:

progresso sem pressão.

Talvez seja exatamente por isso que eles façam tanto sentido na vida adulta.

Quando passamos boa parte do dia resolvendo problemas, tomando decisões e tentando alcançar algum objetivo, é reconfortante entrar em um ambiente em que plantar algumas sementes, arrumar uma pequena casa ou simplesmente caminhar pelo cenário já é suficiente.

Mas o conceito de cozy, para mim, vai muito além dos videogames.

Pode ser montar LEGO, ler ficção, jogar xadrez sem nenhuma pretensão competitiva, cuidar de plantas, desenhar, ouvir um disco inteiro, cozinhar alguma coisa sem pressa, assistir a um anime, tomar café olhando pela janela ou simplesmente caminhar sem destino.

Cozy é qualquer atividade cuja função principal seja proporcionar descanso, curiosidade e prazer.

Nada mais.

E talvez justamente por isso seja tão importante.

#Nem tudo precisa virar projeto

Existe uma tentação particularmente forte para quem gosta de construir coisas.

Você começa um hobby. Depois pensa em como ficar melhor nele. Depois começa a pesquisar equipamentos. Depois cria metas. Depois procura cursos. Depois acompanha métricas.

E, quando percebe, aquilo que deveria ser descanso acabou virando mais um projeto.

Eu conheço muito bem essa lógica.

Nós aprendemos que toda habilidade deveria ter algum tipo de retorno.

Se você gosta de escrever, deveria construir audiência. Se gosta de fotografia, deveria criar um Instagram. Se gosta de programação, deveria construir um produto. Se gosta de finanças, deveria tentar superar algum benchmark. Se gosta de videogame, talvez pudesse fazer streaming.

Até hobbies começaram a precisar apresentar ROI.

Mas existe uma pergunta importante:

e se algumas coisas forem valiosas justamente porque não levam a lugar nenhum?

Talvez uma hora jogando Stardew Valley não precise transformar você em alguém melhor.

Talvez ler um romance não precise aumentar sua produtividade.

Talvez tocar guitarra não precise virar uma banda.

Talvez caminhar não precise contar como cardio.

Talvez seja suficiente ter sido uma boa hora.

#Ma

Existe um conceito japonês que gosto muito chamado Ma — 間.

É difícil traduzi-lo perfeitamente.

Normalmente ele é explicado como o espaço ou intervalo entre as coisas.

Mas não é simplesmente vazio.

É um espaço significativo.

Uma pausa que permite que aquilo que está ao redor exista.

Na música, Ma pode ser o silêncio entre duas notas. Na arquitetura, o espaço entre elementos. Em uma conversa, a pausa antes de responder.

Nos filmes do Studio Ghibli, são aqueles momentos em que aparentemente nada acontece.

O personagem olha pela janela. O vento movimenta a grama. Alguém cozinha. Um trem segue silenciosamente pelo cenário.

Se analisarmos esses momentos com a lógica da produtividade, poderíamos simplesmente cortá-los.

Eles não fazem a história avançar. Não entregam informação. Não resolvem nenhum conflito. Não aumentam eficiência narrativa.

Mas talvez sejam justamente esses momentos que fazem a história respirar.

Sem silêncio, não existe música.

Sem pausa, não existe ritmo.

Sem espaço, dificilmente existe beleza.

Acho que nossa vida também precisa de Ma.

O problema é que tentamos remover todos esses espaços.

Esperando o elevador? Celular.

Fila? Celular.

Almoço? YouTube.

Caminhada? Podcast.

Academia? Podcast.

Dirigindo? Audiobook.

Antes de dormir? Mais conteúdo.

Qualquer espaço vazio precisa imediatamente ser preenchido.

Criamos horror ao intervalo.

E talvez estejamos pagando um preço por isso.

#O contrário da vida é o desencanto

Foi então que encontrei a frase de Luiz Antônio Simas:

“O contrário da vida não é a morte. O contrário da vida é o desencanto.”

A frase ficou comigo.

Porque desencanto não significa necessariamente tristeza.

Você pode estar perfeitamente funcional e profundamente desencantado.

Pode trabalhar, ganhar dinheiro, cumprir metas, treinar, estudar, viajar, construir patrimônio e fazer tudo aquilo que deveria fazer.

E ainda assim perder lentamente a capacidade de se maravilhar com coisas pequenas.

Talvez seja possível administrar a própria existência como uma empresa extremamente eficiente e, ainda assim, esquecer de viver nela.

Quando isso acontece, começamos a enxergar tudo pela ótica da utilidade.

Qual é o benefício? Qual é o retorno? Qual é o resultado? Qual é a métrica? Qual é o próximo objetivo?

Só que algumas das melhores coisas da vida respondem muito mal a essas perguntas.

Qual é o ROI de brincar com seu filho?

Qual é o benefício mensurável de uma conversa longa com alguém que você ama?

Qual é a produtividade de assistir ao pôr do sol?

Quanto uma música precisa entregar para justificar cinco minutos da sua vida?

Talvez a pergunta já esteja errada.

#Produtividade não é inimiga da vida

Também não quero cair no extremo oposto.

Não acredito que produtividade seja ruim.

Não acredito que metas sejam ruins.

Não acredito que métricas sejam ruins.

Muito pelo contrário.

Existe uma satisfação enorme em construir alguma coisa, aprender, evoluir, resolver problemas difíceis, treinar, criar empresas, publicar um texto ou completar um projeto.

A produtividade pode ajudar a construir uma vida extraordinária.

Mas ela deveria ser uma ferramenta da vida.

Não a finalidade dela.

Existe uma diferença enorme entre organizar nossa vida para viver melhor e viver apenas para continuar otimizando nossa vida.

Talvez a maturidade esteja em aprender a alternar esses dois estados.

Existem momentos para intensidade e existem momentos para Ma.

Momentos para correr e momentos para simplesmente caminhar.

Momentos para construir alguma coisa e momentos para fazer algo que não precisa chegar a lugar nenhum.

#Proteger espaços inúteis

Tenho pensado que talvez seja necessário proteger intencionalmente alguns espaços “inúteis” da nossa vida.

Inúteis entre aspas.

Porque talvez sejam justamente eles que sustentem todo o resto.

Uma noite jogando alguma coisa tranquila.

Uma caminhada sem fone.

Uma conversa sem olhar o relógio.

Uma música ouvida sem fazer outra coisa ao mesmo tempo.

Uma tarde sem obrigação de produzir.

Um hobby no qual não precisamos ficar bons.

Alguns minutos olhando pela janela.

Um pouco de silêncio.

Coisas pequenas.

Cozy things. Ma. Encantamento.

Talvez sejam nomes diferentes para uma necessidade muito antiga.

A necessidade de existir sem precisar justificar cada minuto da própria existência.

#A vida não precisa caber em um dashboard

Continuarei usando métricas.

Continuarei criando metas.

Continuarei tentando melhorar.

Provavelmente continuarei transformando um monte de coisas em planilhas, sistemas e dashboards.

Faz parte de quem eu sou.

Mas estou tentando aprender outra coisa também.

Nem tudo precisa aparecer no gráfico.

Nem todo progresso precisa ser registrado.

Nem toda atividade precisa gerar resultado.

Nem toda hora precisa ser produtiva.

Porque produtividade ajuda a construir uma vida.

Mas talvez sejam os pequenos espaços entre as metas que façam essa vida valer a pena.

O vazio não é necessariamente espaço desperdiçado.

Às vezes é justamente o intervalo que permite que a vida aconteça.

E talvez viver bem seja também preservar alguns lugares onde ainda conseguimos nos encantar.

Compartilhar este post